Vejo a felicidade, naquele rosto cansado, de um irmão trabalhador, és um escravo feliz. Enquanto centenas, milhares, milhões, estão pendurados nas tetas institucionais, ele não se dá conta dos grilhões que o oprimem, e é feliz.
Contemplo a cena, que produz em minha imaginação um turbilhão de ideias contra e a favor. O caso exige lucidez, razão e não emoção. Exige presença. Uma presença que evite julgamentos prévios. Mas, que não seja indiferente à realidade que salta aos olhos.
Este irmão tem sonhos. Acredita ser possível, com a força do trabalho, regado ao suor que escorre na pele do rosto, tão intenso como o sangue que percorre as veias, alcançar a vida boa, com segurança, saúde, paz e toda a assistência digna de quem batalhou; por isso, é feliz.
O tempo passa, as incertezas vêm e vão, mas nosso irmão continua focado e é feliz. A cada dia, ele aprende a valorizar o que chega à sua mesa, invariavelmente, com alto custo. Nem sempre seus ganhos conseguem suprir suas necessidades, muito menos as dos que estão sob sua responsabilidade, mesmo assim, é um escravo feliz.
Quando passa, logo cedo, para o seu trabalho, já consegue ver uma turma de plantão no pé do balcão, é um bar, e de lá vozes a ecoar, é um Zé Mané. Ele segue firme, pois sabe em quem depositou sua fé. Ao retornar no final do dia, após tantas fadigas, toma um banho, abraça o filho, dá um xero na mulher, juntos sentam à mesa, agradecem, para em seguida descansar, pois amanhã é outro dia.
O que para muitos é rotina e tédio, para este irmão representa uma constante novidade. Ele entende que cada ato é único e irrepetível. Portanto, cada momento precisa ser vivido com intensidade e a certeza de que aqui é lugar de felicidade e assim, continua feliz.
Muitos acomodados e visivelmente acima do peso por força dos maus hábitos, além do sedentarismo crônico, chegam a questionar: mas, como isso é possível? Um escravo feliz? A este respeito, pensei comigo, não se trata apenas de um escravo feliz, mas de um irmão que compreendeu desde cedo que a natureza humana exige movimento. E cada movimento carrega em si um propósito consciente ou inconsciente, que, quando executado com persistência, dá sentido à vida e torna o sujeito feliz!