Daniel Jorge
A poesia faz a gente ver a vida de forma diferente, mesmo enfrentando tudo e todos.
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Não há nada mais fascinante na biologia política do que a mutação súbita do anticorpo em alimento. Observar o fenômeno de um candidato que ostenta a medalha de honra de 46% de rejeição, um feito que exigiria, em qualquer outra profissão, uma aposentadoria compulsória por invalidez social, ser catapultado à vitória por uma maré de 10 milhões de novos entusiastas é presenciar um milagre matemático. Ou, para os menos crentes, um exercício primoroso de amnésia coletiva aplicada.

 

O estelionato eleitoral, este clássico do guarda-roupa democrático, nunca sai de moda porque é costurado com a linha da conveniência. O eleitor, essa criatura dotada de uma lógica que desafia a física, decide que o abismo que ele jurou odiar no primeiro turno tornou-se, subitamente, um degrau aceitável no segundo. A rejeição absoluta, que antes era uma barreira intransponível, dissolve-se como açúcar em café ruim diante da ameaça, real ou meticulosamente fabricada, de algo que o espelho do medo projeta como pior. É a consagração do "menos ruim", o triunfo da aritmética sobre a integridade.

 

O mais irônico não é o estelionato em si, mas a cerimônia de posse da ilusão. Os dez milhões de votos adicionais não são votos de confiança; são votos de despeito, de pânico ou de uma esperança cega que ignora os sinais vitais do caráter público. O candidato, outrora um pária para a maioria, descobre que não precisa ser amado, basta ser o receptáculo útil do ódio alheio. É a política reduzida a um jogo de eliminação, onde o vencedor é aquele que sobra no tabuleiro depois que todos os princípios foram sacrificados em nome da "estabilidade", essa palavra que usamos para dormir à noite enquanto a casa ainda arde.

 

Assistimos, então, à dança das justificativas. O eleitor que jurava "este jamais" agora ensaia o "veja bem, as circunstâncias mudaram". As circunstâncias, claro, permanecem as mesmas; o que mudou foi o nível de tolerância ao próprio autoengano. O sistema, ciente da nossa fragilidade, nos oferece o cardápio das falsas simetrias, e nós, famintos de sentido, devoramos a promessa que sabemos ser falsa antes mesmo de o papel da urna ser processado. É um espetáculo de hipocrisia refinada, onde a vítima do golpe é quem segura a caneta que o assina.

 

Diante desse teatro de sombras, a primeira tarefa é o exercício da memória seletiva reversa: anote hoje os motivos pelos quais você rejeita o que é inaceitável, para que a urgência do amanhã não o transforme em cúmplice do que você despreza. Depois recuse o papel de "idiota útil" da polarização, exigindo reformas que punam o estelionato programático, transformando promessas rasgadas em cassação imediata. Afinal, se o voto tem o poder de perdoar o imperdoável, que ele tenha também a coragem de exigir o inegociável: a coerência entre o que se diz no palanque e o que se faz na caneta. O que você está disposto a ignorar hoje para não ter que admitir que errou ontem?

Daniel Jorge
Enviado por Daniel Jorge em 31/10/2026
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